O POETA E O
GÊNIO
João Justiniano da Fonseca
Vem-me de duas queridas amigas a lembrança –
Célia Lamounier e Deslanieve Despet – hoje é o
dia do escritor, hoje é o dia do poeta. Dia
nacional! Abro os braços, estendo-os aos céus
na sua distância infinita: Senhor, eu sou
poeta! Na luz mental que me passaste e se fez
responsável pelo que sou, há uma força, não de
ver, mas de entender. O invisível eu não o
alcanço, sinto que está em mim e me comanda a
ação, impulsiona à frente, entranha em uma
roda gigante que vai por si, por si se move
deixando rastros, marcas na passagem.
Minha poesia, senhor, será menos minha,
pessoalmente, do que eu próprio imagino. Vem
de ti, está nessa luz que me passaste ao
acordar para a vida. Talvez no ventre de minha
mãe, no momento da concepção. Eu sou poeta,
Senhor, poeta nasci. Mestre, o livro é como o
interlúdio na composição musical, uma
impulsão, um acordar do inconsciente. Como
diria que se entenda sem dúvida, sem que se
pense que deliro? A poesia é divina, vem de
ti, por ti colada às entranhas do poeta, à sua
alma. Uns mais, outros menos. Castro Alves
gritava à vista da morte: “eu sinto em mim, o
borbulhar de um gênio”. E era um gênio maior.
Maior que nós outros, milhões de vezes. Mas,
Senhor, em cada um de nós, poetas, puseste um
átimo, um instante, um mil milésimo de tua
divindade. O poeta é um predestinado, um gênio
que vem de ti.
Um exemplo do que sente o poeta em seu
momento, tomo destes dois instantes da coroa
“Leveza do Soneto”. Longe de dizer o gênio de
Castro Alves em nós, somos, todos um pouco
divinos:
VIII - A FANTASIA
Sol de esperança e augúrio, o tudo e o nada,
que se completam dando vida ao sonho,
quando escrevo me vêm de Deus, suponho,
na fantasia em chamas abrasada.
Corusca a fantasia, eu a disponho,
como desejo e entendo trabalhada.
À garupa dos deuses vem montada,
desce da Estrela D'Alva, luz e hormônio.
No cume do Himalaia, novo Atlas,
sustento no ombro os céus, cantos e oblatas,
à Eternidade e às Musas, de mansinho.
Humanizado, estiro-me na areia,
e um soneto de amor canto à Sereia,
que vem na morna embriaguez do vinho.
IX - DON QUIXOTE
Que vem na morna embriaguez do vinho,
na fria involução de antigas eras,
eu sei que vem - retorna das moneras
meu pobre Sancho Pança do moinho.
Sou o Don Quixote, esgrimo a espada e alinho
a tempestade e os ventos, mato as feras,
corto a cabeça tríplice às Quimeras,
Bellorefonte - o mar em torvelinho.
O sonho tudo pode, e agora mesmo,
ando no espaço caminhando a esmo,
ou navego a loucura que me assume.
Remarco a fantasia e armo a cilada
para o soneto... A mente conturbada,
Ponho-lhe o alvor do lírio e o seu perfume.
14-03-09