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Fossa
Delasnieve Daspet
Não quero ajuda.
Não quero saber do dr. Lair, nem do Og,
muito menos do Hill.
Eu quero curtir este ciúme,
sofrer e chorar,
não vou facilitar.
Não busco solução rápida...
Não vou mostrar fragilidade!
Só poderei sair deste romance
se curtir a fossa,
viver a dor de cotovelo.
Quero meu tempo de chorar.
Não busco e não quero luminárias,
nem preciso me encontrar comigo.
Sei quem sou,
sei onde estou,
...no fundo do buraco!
Quero parar e lembrar
que tudo acabou.
Não me venham com panos quentes,
eu quero curtir o abandono.
Quero um tempo para olhar-me,
profundamente. Enxergar-me.
Não vou distanciar-me de mim.
Não quero uma assepsia..
Quero ficar uma semana tomando
potes de sorvetes, comendo pizzas...
lambendo minha ferida
E só vou emergir
quando conseguir me olhar olhos nos olhos,
quando puder relembrar os fatos,
quando nada mais for obsessivo,
quando a insegurança já não existir,
quando puder fazer concessões,
quando enxergar vida própria
e poder ser feliz de alguma forma.
Quando valer a pena,
independente da estagnação que me encontro.
Aí, saberei que estou pronta para viver,
mas para isso eu preciso
curtir a minha fossa....
Delasnieve Daspet
05/3/04
Campo GrandeMS
A Magia do Espelho
Olhei-me através do espelho
e não vi nada,
absolutamente nada.
Ás vezes ainda via uns olhos tristes,
outras vezes um sorriso trocista,
ainda ás vezes um esgar que mais parecia uma careta.
Mas hoje,
eu não vi nada.
Estendi o braço
e a minha mão deslizou através de uma superfície lisa
e fria
e infinitamente vazia.
Nada!... Nada mais existe!
Será que estou louca?
Não,
recuso-me a admitir tal ideia.
Olhei directamente para mim
e vi-me desprovida de qualquer peça de vestuário.
Bruscamente abri o armário
e retirei os meus velhos jeans,
um blusão que outrora teria sido azul
e uns ténis já com uma cor indefinida.
Vesti-me e sai furtivamente de casa.
Necessitava estar só
e nada melhor que caminhar pela rua para que esse
desejo se concretizasse.
Caminhei muito,
não sei ao certo quanto.
Cada passo que eu dava
fazia-me sentir um tremor por todo o corpo.
Não sei se era frio,
se era medo,
talvez as duas coisas ao mesmo tempo.
Que estranho,
é o mesmo caminho que eu todos os dias percorro,
só que hoje parece tão diferente.
Confiei nos meus pés
e segui-os até onde eles me quiseram levar.
Não fomos muito mais longe,
mas creio que nunca ali teria estado.
Estava escuro,
um leve nevoeiro pairava no ar
e ao longe as luzes infiltravam-se através dele
produzindo aquilo
que eu agora chamaria de belo.
Que espectáculo,
que vontade que eu tive de voar
e tal como o nevoeiro ir ter a um sítio longínquo,
um sítio onde a noção do tempo já não existisse.
Afinal de que fugia eu?
De repente comecei a sentir uma sensação estranha no
corpo
e só então me apercebi
que durante o meu estado de apatia a chuva tinha
começado a cair.
Mais uma vez olhei directamente para mim
e perguntei-me,
afinal de que fujo eu?
Sentia a cabeça a estalar devido á confusão de
respostas
que nesse momento me afluíram directamente ao cérebro
e apenas uma teve sentido.
Sim,
eu fugia de mim própria,
fugia da minha imaturidade,
fugia da minha cobardia,
fugia da minha própria vida.
Que absurdo!
Seria talvez fraqueza eu demonstrar a minha
inexperiência,
no entanto nessa noite,
vi claramente o meu outro eu
e senti pena de mim.
Olhei para o céu
e senti o embate da chuva que carinhosamente me
acariciava o rosto
e chorei,
não lágrimas de tristeza,
mas sim lágrimas de alegria.
Finalmente eu tinha compreendido.
Compreendi que nem sempre nós ouvimos aquilo que
queremos,
nem sempre fazemos aquilo de que gostamos,
nem sempre veneramos aquilo que mais amamos,
no entanto,
bem cá no fundo,
o nosso coração transborda de amor,
amor esse que quer dar,
amor que também quer receber.
Um ladrar longínquo chamou-me á realidade
e senti quase que inconscientemente os meus lábios a
abrirem-se
e a formarem aquilo que eu quase pensava já não saber
fazer.
Sim, eu sorri
e quase que momentaneamente esse sorriso
transformou-se numa estrondosa
gargalhada
ressoando aos meus ouvidos como a mais bela melodia.
Dei meia volta e corri em direcção de casa.
Entrei lentamente para que ninguém notasse que eu
tinha estado ausente
e entrei no meu quarto.
Olhei em redor
e mais uma vez senti-me a sorrir
e reconheci em cada objecto que me rodeava uma parte
da minha vida.
Na parede, um quadro que eu tinha pintado,
em cima da estante o suave odor de alguns perfumes
e aquele boneco quase tão velho quanto eu.
Enfim,
um mundo meu,
mas que no entanto pode fazer parte de tanta gente.
Olhei-me novamente através do espelho
e vi claramente aquilo que ainda posso vir a ser.
Julia Sousa
música:
Amigo
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