O Bilhete de 27 Anos

 

"De quem eu gosto...nem às paredes confesso..."

Quantas vezes ouvi... Cantavas e tocavas, para mim... Foi em 1.973.

Anos duros... repressão...tanques...  Mas existiam flores... Existia Vandré... E pra não dizer que não falei de flores... Estávamos na flor da idade. Tu um poeta. Eu a aprendiz. Ambos acadêmicos de direito. No ar a música. A boemia. A poesia. O amor. Sonhavamos..

Nada podia ser mais belo. Mais completo, que estarmos vivos e nos amarmos?

E de repente, sem que nada pudesse explicar, o poeta parou....sua voz calou... não fazia mais serenatas....o boêmio ...trocou as válvulas do coração....e nada mais foi igual....

O amor que florescia belo, como uma rara orquídea cultivada... Foi abandonado! Não existiam mais os olhares cúmplices... Tudo tinha ficado num átrio temporal!... E, em 1.974 recebi - no meu aniversário - 24 botões de rosa - vermelhas púrpuras - com um bilhete - (o último! ) - que dizia:

 

" D.

 

Entre nós estudiosos da ciência paradoxal, que é o Direito, seria inútil e até ridículas, PALAVRAS!...

Eis que, com os mesmos adjetivos, substantivos etc... Que procuramos criar uma límpida poesia, cultivamos a arte de dissimular e enganar em busca de objetivo, muitas às vezes, - SOFISMÁTICO!...

Por isso, numa ânsia frenética, num apelo quase patético, numa fantasia, talvez, tola de poeta, mando-lhe essas ROSAS, querendo comunicar no seu mundo diferente, muita paz e amor - um dia azul, alegre e contente, pois é um dia bem especial e "todo seu". - E no aroma puro dessas flores, cujo perfume é autêntico e nobre, dizer a você, que na augusta simplicidade das coisas está a essência do todo, de tudo - "a felicidade ". Com muito carinho, do GFS. " Setembro de 1.973.

Em seguida fostes embora. Fostes fazer companhia à voz dos pássaros no azul do espaço. Deixando apenas a certeza do reencontro. Um dia.

Hoje - 27 anos após - de novo meu aniversário - Uma vida passou. Refiz-me. Segui andando. Cumprindo os desígnios que a mim foram dados. Esperando que chegue a minha hora .. E, eis que te reencontro! Na saudade que me atormentou procurei e achei teu bilhete. Estava lá. Dobrado. Em 10 partes. Numa caixinha. Mas ainda perfeito.

Passado tanto tempo. Ainda fazes serestas? Agora deves cantar junto com o outro boêmio - o Nelson Gonçalves! Teus lindos poemas...Certamente os escreves... agora, ao lado e tendo por inspiração o poetinha Vinicius que tanto amavas!

Fechei os olhos. Revi as cenas. Caminhos que andamos. O que falamos. Estás tão vivo em minha mente! Lindo sorriso de dentes brancos. Olhos castanhos brilhando.. Teus dedos finos e longos de violonista, lábios carnudos pedindo beijos! Será que a brisa que de leve roça meus lábios são teus beijos?

Primeiro a surpresa da presença... Em seguida a sentida ausência! Chorei... Ainda uma vez! E em minhas mãos, a última coisa que ainda podia enterrar meu rosto, o que de certo modo me unia a ti!

E na minha lembrança, vinte sete anos se transformaram em segundos... E revi, vivi, senti:  passado, presente, futuro... O tudo e o nada que a vida nos passa!

E no bilhete reencontrado, na ausência sentida, na presença presentida... De novo ficamos, frente a frente, nós dois.... Falavas comigo... Uma última vez!

Sei hoje que não existe ausência. Que não existe adeus. Neste hiato... Apenas, um até breve!

 

 

 

Acorrentada nas amarras desse amor,

Nunca fui presa rebelde,

Continuo ave na gaiola..

Me ceguei...Me entreguei... Não me afastei...

Meu ar, este que respiro, ainda tem teu cheiro!

E no canto que te deixo....

Na flor que te perfuma...

A rosa branca da saudade!

**********

delasnieve daspet - setembro de 2.000

Campo Grande MS

 

música: Crespúsculo

 

 
 

volta|poesias|duetos|homenagens|busca interna|livro de visitas|e-mail|home 

 
 


Para receber nosso
Boletim de Atualizações
cadastre AQUI o seu e-mail


Envie esta página
para alguém especial