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Delasnieve
Daspet
Ah! Júlia que espera que eu te diga? Que choquei-me
com tua carta? Sim! Assustei-me, mas não a
banalidade de um mero susto.. apenas o susto da
responsabilidade que temos com os amigos, com os
irmãos que vamos adquirindo durante o caminhar.
Queria responder-te
em PVT - mas noto que queres rasgar a fantasia e
pisar no chão, com ambos os pés, sair da casca e
começar a mostrar à Júlia que a vida é muito
mais que fechar-se em lembranças; muito mais que
tolher-se da felicidade...
Sim, tolher-se! A
felicidade nós a construímos no dia a dia. A
cada momento. A cada hora. E tu, Júlia tens
tanto! Tens - em primeiro lugar o teu talento -
este talento que te fez continuar... é,
continuar! Seguir em frente ainda que aos
pedaços, ainda que lamentando com cada fibra do
ser o ocaso de teus sonhos-Fernando!
Mas, nessa dor que
ainda guardas, só pensastes em ti. No egoísmo de
teu amor-perdido, não pensastes um só momento
que Fernando também sofre com tua desdita. Claro,
eis que a morte não existe, é apenas a
transposição de um estado para outro.
Não vivestes,
amargurastes o teu caminhar e claro, também a
seqüência espiritual de Fernando - que
certamente triste se encontra ao teu lado -
esperando que voltes a sorrir e ver - em teus
saltos de pára-quedas - a imensidão do azul que
te abraça todos os dias.
Olha o vento que
sopra teu cabelo e que te faz sorrir - pensa que
seja uma caricia que te vem de longe e
transforma essa tristeza numa agradável
lembrança. E a lembrança em esperança - pois que
se a morte não existe - certamente haverá um
outro momento para ti. Este pensamento sempre
soe diminuir as tristezas. E pensa, também, no
quanto és feliz - quem tem uma família
maravilhosa como tu tens - seres que vieram para
amenizar tua dor, perfumar tua existência com
amor, nunca iriam magoar-se contigo... ao
contrário, estarão sempre a postos para te
abraçar e aconchegar em tuas necessidades.
Ama-os e torna-os teus amigos sempre!
Tua filha - pensa
nela como a força que te foi enviada, o presente
que te foi dado - a luz que te veio iluminar -
mostrando-te que mesmo na incerteza, nas
tristezas, a vida segue - e nada como uma
criança para nos ensinar todos os dias as coisas
que teimamos em esquecer.
Amar? - como não
podes mais amar ? Amarás sim, permita-te,
entrega-te ao amor. Professe o amor. Trabalhe o
amor. Trabalhe em ti. No teu crescimento.
Procure alguém que necessite de tua força,
velhos desamparados, crianças, entrega-te a um
labor com todas as tuas forças e querer... o dia
será curto para tantas atividades que irás
arrumar.
Quanto ao pai de
tua filha - permita que ele seja pai. Fizeste-me
crer - em tua carta - que absorves em demasia,
juntamente com teus maravilhosos pais, a
Adriana. Deixa-a voar um pouco, conhecer o pai.
Exerça uma vigilância amorosa, gentil, amiga.
Ela te será grata.
uma criança precisa do pai - precisa da figura
paterna até para um referencial futuro.
Quanto a ti - saia da gaiola dourada que te
metestes - saia, já! Lá fora brilha o sol,
sorrisos, afagos, existem pessoas amigas, sérias,
comprometidas umas com as outras... existe vida.
E viver, Júlia,
implica em responsabilidades contigo e com os
outros. Mas, primeiramente contigo. Como poderás
dar sem ter ?
Os poemas que
sacrificastes - queima-os no altar da saudade e
escreve outros.. ou melhor, reproduza os que
deletastes, eis que todos estão aí, dentro de ti,
esperando apenas que lhes dê guarida e alforria.
E lembre, a amizade é um perfume suave e
imorredouro. Não existe distância, tempo, nada
que a modifique.
Saia, sorria, voe, viva!
Vire a página e
abra uma nova: A VIDA TE ESPERA!
Um grande abraço da amiga
Delasnieve Daspet
12/09/04 - 00,30 hs
Campo Grande/MS/BR |